Em um mundo qualquer,
Aquele um caminha trôpego, ébrio e triste de volta pra casa,
Carrega consigo seus sonhos, medos e coisas tantas dos outros.
Seu fardo enfada-lhe e encurta-lhe os dias vindouros.
Sonha apenas adormecer deste mundo e acordar naquilo que lhe prometeram desde sempre.
Mas, sabe que já lhe prometeram tanto e na verdade, apenas tiraram-lhe até o pouco que tinha.
Agora, olha pra trás, tropeça e cai pesado no chão molhado da chuva da tarde.
Eleva seus olhos úmidos aos céus e suplica mais uma de tantas outras vezes, o fim. Suplica e implora que acabe. Depois de já tanto suplicar,
Depois de tanto ter perdido,
Depois de ter sido tão ferido e magoado,
Depois de ter tanto esperado,
Depois de tanto ter sofrido,
Depois de ter tanto buscado e não alcançado,
Depois que ter sido rejeitado e machucado,
Depois de a chuva ter recomeçado...
... Por fim levanta. Cai e se arrasta no asfalto enquanto o mundo se desvanece em meio às gotas de chuva, de lágrimas suas,
De saudades suas,
Das maldades suas,
Das pancadas suas,
Das queixas suas,
Das pedras da rua,
Das pessoas de rua.
Tenta desesperadamente ficar de pé.
Debate-se até conseguir chegar a calçada do outro lado daquela rua.
Exausto e dorido, se agarra aos pés de um banco de praça, velho e apodrecido como o que habita em seu peito.
Desperta de repente, uma dor lascinante, que lhe percorre o corpo todo doente.
É a morte!! Lhe grita o inconsciente.
É a morte!! Lhe dói o corpo inteiro novamente.
Consegue deitar-se ao lado do banco, mas ao custo de uma enorme farpa, que se lhe entrou na palma da mão direita. Aquele um olha e ri. Não sente dor. Não essa dor medíocre e insignificante. Sente a outra corroer-lhe as entranhas até à alma.
Outra vez debate-se, golfa e cai de lado.
Coloca-se deitado, mãos sobre o peito. Ensaia a pose da morte. Solene e irrepreensível, irremediável e infalível, morte.
Esfria rapidamente. Agora pensa: a hora chegou! Estou livre!
Nada acontece. De novo a dor, não aquela, a outra.
É, até para morrer é preciso marcar hora.
A demora o faz pensar em tudo que viu e viveu,
Nas horas que perdeu tentando ir-se embora, mas nada conseguiu.
Talvez por covardia ou por não estar mesmo na hora.
Depois de estar todo encharcado e coberto de lembranças e mágoas, levanta-se, põe-se de pé e segue seu caminho até achar sua casa. Ali, à porta, se livra das roupas e da garrafa.Dá então o último gole daquela noite, e entra em casa com um lânguido olhar a tudo que encontra.
Está em casa. Seu sofá,
Seu tapete,
Seu gato,
Seus chinelos,
Suas tralhas,
Sua TV,
Sua raiva,
Sua falha...
Lembra-se o que sentia antes de sair para beber e volta porta afora. Vai para o bar beber para tentar esquecer de novo...
Igor Furtado.
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