quarta-feira, 2 de agosto de 2017

As paredes do tempo

Antes de nosso último ato, devo te contar o que aconteceu enquanto tu fazias expedições sozinha no mundo.
Eu fiquei, novamente saudoso e só, trancado em nossa casa. Quando acordei, já não estavas. Corri ao pátio, nada.
A garagem estava vazia, nem tu nem carro lá estavam.
Olhei os jardins, mas até mesmo as flores, as cores e a grama, tu levaras.
Não havia bilhete. Tampouco recado na secretária. Apenas o vazio e incômodo e pesado da tua ausência.
Então decidi que iria sobreviver. Essa casa aqui já esteve vazia antes. 
Saí, comprei uns discos, garimpei uns discos no cebo da esquina, passei no mercado e comprei comida. Confesso que prepará-la sem você não teve a menor graça.
Quando terminei, a louça suja chegava quase até o teto.comi sozinho tudo que preparei e à luz de uma pobre vela - a energia tinha ido embora atrás de você - eu bebi uma generosa taça de vinho tinto. Daqueles que você adorava beber, quando fazíamos nossas farras.
Quando acabei, larguei tudo em cima da mesa e resolvi tomar banho e uma atitude drástica: sobreviver a tudo que sua falta me impusesse.
Tomei um longo banho, chorei enquanto a água do chuveiro me acariciava as costas doridas, deixando as magoas irem embora.
Me vesti, saí sem rumo certo, a pé pela rua alvoraçada de tanta vida. 
Vi crianças brincando no pátio daquela casa amarela. Elas pareciam vir de dentro de outro tempo, um tempo onde ainda havia inocência e os sonhos e brincadeiras eram coisas sagradas e indestrutíveis; do tempo em que as promessas de dedinho eram inquebráveis e indissolúveis. Ao me ver, uma delas parou o que fazia, e seu riso murchou como as cores das árvores e flores no dia em que você partiu.
Acho que essa, me sentiu de verdade, captando a minha angústia e saudade. Pobre pequenina criatura!
Após um espaço de tempo incalculável, cheguei ao cais. Tudo parecia ter sido levado às pressas para algum lugar além das promessas, das possibilidades de volta ou do alcance da nossa esperança.
Assim, recostei-me ao murinho que servia de anteparo, antes, para tantos beijos, promessas, pedidos de casamento ou encontros de namorados apaixonadamente apaixonados. Eu, ali, agora, estava sozinho. Tirei do bolso da jaqueta uma garrafa de rum barato e nesse gesto, um pequeno pedaço de papel veio junto, amassado e amarelado pelo tempo em que fez do meu bolso sua morada. 
Agachei-me, apanhei o papel. 
Desdobrando-lhe, vislumbrei suas intimidades. Nele haviam tantas palavras juntas, escritas naquela letra tua tão perfeita, que tive que tomar um bom e demorado gole de rum antes de continuar, bem como coragem e boas doses de ar. Enchi meus pulmões com o ar frio da noite, até quase arrebentar, me fiz de durão e encarei novamente o papel em Minhas mãos.
Lá estavam elas. As palavras, as tuas palavras, as respostas. Talvez nem todas as palavras e respostas que eu precisava ouvir, mas ainda assim, todas elas.
Depois de calmamente ler e reler várias vezes aquilo tudo, joguei-o ao mar junto com a garrafa vazia. Eu nem me dera conta de quão rápido e furioso passara o tempo. Tentei três vezes caminhar sem apoio até o fazer. Estava tonto. 
Voltei pra casa e me lancei de cara no tapete da sala. Jamais conseguiria subir as escadas até o quarto mesmo. Ali fiquei. Deixei que as horas corressem livres como cavalos selvagens. Indomáveis, livres, selvagens. Quando me dei conta, já não podia contar mais nada. Ao acordar pela manhã ou tarde do dia seguinte - não fazia ideia - suas palavras gravadas naquele papel me vieram reabrir velhas feridas, relembrar canções tão antigas e me fazer sentir mais vazio ainda. 

O que vem agora, tu não merecerias saber, mas sinto que devo ir até o fim. Portanto, ouça. 
Depois que li seus versos naquela carta, suas explicações absurdas pra algo que não se justifica, decidi que não faria mais diferença. Nada mais importava e nem agora importa. 
"Longos dias e belas noites", como diz a saudação daquele livro. Embora, dane-se! Era o que eu esperava encontrar. Sua sutileza foi desnecessária naquele momento. 
Por tantos outros momentos ao longo dos anos de minha vida, camoninhei contigo ao meu lado. Nunca achei que fosse durar mais que um instante, um segundo. Durou até demais, mas o tempo não faz jus às Minhas lembranças. 
Preciso sair dessa casa carregada de tuas memórias, mas confesso não ter coragem de tentar te apagar da memória. Sei que ainda há muitas histórias - nossas - que viveremos em paralelo, separados somente pelas paredes do tempo. Passarás por onde eu passei, conhecerei que tem conheceu; amarás quem eu nunca amei, mas jamais me roubarás os anos que ainda anseio passar nessa terra. Estarás enraizada em meu peito como uma erva daninha, parasitando e absorvendo de minha própria vida as forças Minhas. Só não mais permitirei que me domines.

Igor Furtado.

Nenhum comentário: