sábado, 29 de julho de 2017

Aquele dia...

Era uma vez um receptáculo de palavras pesadas;
De tantas vidas vividas;
De frases duras 
E amizades escolhidas.

Cada dia de sua vida era uma tormenta infinda;
Cada hora sua vivida, equivalia ao tempo de uma vida;
Cada glória alcançada valia uma dura decaída.

Era uma vez essas palavras tecidas em versos tão sentidos;
Tão tensos;
Intensos;
Inteiros;
Inteiramente sofridos.

Era uma vez um ser de poucos amigos;
De palavras tão fáceis;
De amores tão raros;
De dores tão vívidas;
De cores tão frias.

Era uma vez minha vida;
Minhas muitas e diversas vidas;
Aquelas que vivi já ainda nessa vida,
Mas que nunca cheguei a completa-las.
Tão longe de chegar ao ápice de qualquer uma delas, vivi meus dias de luta sem gozo de vitória.
Em sua maioria, foram surras pesadas e batalhas perdidas.

Era uma vez as tuas presenças aqui comigo,
No silêncio do quarto,
Deitadas ao meu lado, 
Me dando carinho.
Agora sozinho, me deixo levar pela saudade...

... Saindo pela porta já tão calejada de despedidas, me pus a olhar em redor e perguntar a mim mesmo para onde eu iria. Afinal, para onde eu iria?
Caminhei trôpego pela rua pavimentada e ladrilhada de poesias mortas e ideias perdidas. Avancei até o cruzamento da minha com a tua vida e percebi que ali havia um acidente terrível. Meus sonhos todos atropelados pela carreta da tua falta de vontade. Despedaçados ainda jaziam meus sonhos de outrora.
Saí correndo e me escondi num bar ali perto. Bem ao lado da sua falsa imagem moralista e tuas pregações hipocritas e vazias. Ora, o que mais eu queria? 
Todo esse tempo eu havia esquecido que você existia. De repente, naquele cruzamento, eu novamente te via. Pensei comigo mesmo - vadia!
Não havia mais tempo para voltar no tempo e resolver tudo em um único dia. Havia contas a pagar e muitas cartas vazias.
Peguei um táxi e dei ordem ao motorista que me levasse correndo ao outro lado da vida. Que passasse na ida por alguma loja de bijuterias, para que lá eu comprasse de volta à tua alegria. 
Era tarde, nada mais havia aberto, exceto os bares e cabarés onde antes eu me divertia.
A boemia sempre acolheu os rejeitos da poesia;
Aqueles a quem a única saída é a fuga da própria vida, as putas e as bebidas.

Pedi que ele parasse naquela mesma esquina em que um dia um poeta e uma libertina se fizeram um só;
Onde ela o quis por um instante que pareceu eterno e só;
Agora é só...
Enquanto eles se beijavam debaixo do céu e seu teatro de estrelas, o universo parou para ver aquele espetáculo.
Pobre poeta sonhador barato;
Pobre sonho que se realizava e agora jaz em pedaços;
Pobre alma que se deixou enganar outra vez.

Ela queria! 
Ela o queria!
Ele a queria também...

Mas, ela mudou de ideia ou a ideia dela mudou de ideal ou de ideia.
Agora não mais o queria;
Agora queria vê-lo tentar juntar seus cacos e seus pedaços enquanto ria e assistia. 

Somente depois de ver essa cena pedi ao motorista que sumisse dali imediatamente.
Mais dois quilômetros à frente, e já era dia. Aquele dia. Que vinha raiando e deixando tudo claro como o dia;
Claro como aquela mesma noite radiosa, em que um certo poeta teve um sonho realizado por um breve instante. 
Ele mandou parar novamente. Desceu do táxi, caminhou lenta, mas determinadamente em direção àquela luz e por fim se deixou invadir por ela, até não mais restar nada ao redor de si a não ser aquele dia...

Igor Furtado.

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