segunda-feira, 17 de julho de 2017

O último canto, o último verso, a próxima parada...

E mais uma vez, te vejo pôr teu mundo inteiro numa sacola e te postares no arco da porta, à espera de outro adeus;
Com teus negócios e tuas coisas;
Com tuas lembranças e tuas cismas;
Com tuas dúvidas e descobertas de uma vida;
Com teus passados repassados de cada dia,
Dia após dia...

E mais uma vez, carregas em si as dores de todo mundo;
As cantigas de despedida e os sinos dobrando outra partida.
Não a tua nem a minha, mas outra dessas tantas que cantastes e carpistes no teu íntimo;
Daquelas que guardaste em segredo e saudade;
De tantos amigos teus que se foram já bem antes;
Daqueles tantos amores teus que marcaram tua vida e teu semblante;
Daqueles que insististes em fazer nota em honra;
Daqueles que até o teu último dia, lembrarás a cada instante...

E assim, outra vez, deixas esta casa. Teu lar primeiro e os abraços carinhosos de tua mãe amada;
Deixas assim, mais uma de tantas pessoas que conheceste e com quem dividiste o caminhar pela estrada;
Deixas as cartas e escritos de tantas horas em solidão de sofrimento e pesar profundo;
Deixas de fazer teus versos e frases sangradas jogadas pra fora do teu peito por força de tantas empreitadas sem proveito;
Deixas de suportar no peito a dor mais pesada;
Deixa escorrerem as lágrimas;
Deixas de prender a dor em ti, em cada respirada...

E assim, mais uma vez, partes para outra desconhecida jornada, largando teus soluços e palavras pelo vento;
Tuas melodias e canções não mais cantadas;
Tuas alegrias e sorrisos;
Tuas noitadas;
Teus amigos e desafetos;
Tuas namoradas;
Tuas memórias tão antigas quanto o próprio tempo além do tempo,
Do tempo em que foram tudo,
Do tempo em que já foram nada;
Tuas manias de moço estranho e tosco;
Tuas manias de poeta obscuro e melancólico;
Tuas maneiras quase fúnebres de ver e de viver a própria vida...

E assim, te despedaças mais um tanto, enquanto aguardas o desfecho de outro capítulo de tua longa história;
De tua sina e procura pelo mundo,
Da razão que dará razão à tua vida;
A compensação por tudo já sofrido e perdido;
A consumação e confirmação de tantas teorias e profecias esperadas;
À espera de uma outra vida ainda nem sonhada;
A tua estadia que já dura tantas vidas não terminadas;
A tua ousadia de ver e de viver da tua maneira o pequeno e vasto mundo...

E assim, te encontras sentado na soleira da porta, com tuas malas, tuas coisas e teus causos, tuas causas,
Tuas casas, 
Teus contos de fada,
Tuas ruínas,
Tuas batalhas,
Tuas rotinas,
Tuas jornadas.
Aguardas não sei o quê ainda este dia.
E eu te vejo implicar com os guris que jogam lama na calçada.
Tu gostas mesmo de implicar com os outros!

Mas, sei que és assim não por simplesmente ser, mas porquê se fosses diferente, não serias nada.

E assim, outra vez te vejo olhando ao longe no horizonte, com os olhos rasos d'Água.
Tu estás ainda aqui, mas tua mente já viaja;
Teu semblante se entristece e tua voz já embarga;
Teus gestos te entregam.Estás sentindo a dor mais cruel e não falas nada;
Teus lábios tremem de levinho;
Teus olhos deixam aos poucos cair algumas lágrimas.
Choro contigo baixinho para não atrapalhar a poesia que paira sobre cada lufada do vento matreiro sobre os teus cabelos já tão raros em debandada.

Não és exemplo bom para ninguém.
No fundo não sabes nada.
Ainda assim, tens tanto mesmo não tendo nada...
E assim, sem palavras, me despeço de ti, meu pobre poeta, sem rumo, sem parada, jogado no meio do mundo, vivendo de arribada. 
Buscando encontrar seu porto, seu caminho e sua amada;
Buscando terminar o caminho e por fim chegar à alvorada dessa tua noite, que já dura tanto tempo e parece mais distante a cada missão terminada.
Segura os passos da saudade;
As trilhas tortas que alguém antes de ti deixou para que sigas;
As pegadas já quase apagadas da tua felicidade tão almejada...

O último canto, o último verso, a próxima parada...

Igor Furtado. 

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