Às vésperas de meus últimos dias, tuas lembranças me fazem companhia.
Cada gesto,cada toque;
Teu sorriso,tua doce magia.
Olho ao redor, e o que sobrou agora é cinza.
Tua saudade, tua amizade,tua liberdade, tua vida em minha vida.
A cidade mudou,
A gente amiga mudou,
O tempo mudou.
A felicidade foi morar depois do fim de tudo.
O cachorro, triste,me olha de um canto escuro da sala.
Os fantasmas doutros tempos,me cercam em cada cômodo vazio de nossa antiga casa.
As plantas e os pássaros se foram.O jardim morreu.
Cada dia, menos feliz nasceu, depois do fim de tudo...
Saí para tomar uns goles,
Me perdi ao virar uma esquina.Percebi.Tudo realmente mudou.
Minha cara mudou,
Minha idade mudou,
Minha realidade mudou,
Minha verdade mudou,
Minha vida mudou.
Só restou o que fica depois que os sonhos se vão.
Pedaços de lembranças jogados pelo chão,
Palavras ditas e aquelas que morreram sufocadas na garganta,
Todo sentimento do mundo e algo além de um simples,mas sincero "eu te amo ",
Entro no bar.vou ao balcão e peço uma garrafa de ilusões para uma noite de sexta sem sono e sem companhia.
Saio.Caminho entre outros bêbados miseráveis, que como eu,não têm nada melhor para fazer numa noite fria como essa.
Me sento na calçada de concreto frio.
Olho para o céu. Uma gota cái no meu único olho bom.Seguem-se outras.Em breve, a tempestade, impiedosamente desaba sobre a cidade.
Não tento fugir.Deito no chão e me permito ser inundado pelas águas. lágrimas do céu, lágrimas do mundo,lágrimas do meu peito em pranto.
A garrafa cái ao meu lado como que para mostrar solidariedade com a minha dor.Derrama seu conteúdo como que a chorar comigo o que se foi e o que restou.
Levanto.
Me arrasto até o outro lado da rua.
Chego à praça deserta. Me espalho na grama.Contemplo o céu em fúria a derramar seu choro sobre a terra,como uma mulher traída chora sua sina.
É, a cidade mudou,
Meu jeito de ver a vida mudou,
Meu orgulho louco e inumano mudou,
Todo mundo mudou,
A felicidade,pegou um taxi e se mudou para o outro lado do mundo.
As crianças mudaram,
Cresceram, ou morreram de fome.
Ah,o cachorro também morreu...
Toda vizinhança morreu,
Meu orgulho morreu,
O papagaio morreu,
A Internet morreu,
Só restou a saudade.
O frio não me afeta.Estou bêbado e nada mais me importa,
Nada mais me impressiona,
Estou morto,
Nada mais me machuca,
Nada mais me convence,
Nada mais me chama a atenção,
Nada mais me oprime. A não ser tua ausência.
A escuridão mudou,
Meu passado mudou,
Meu amor mudou,
Minha fé mudou,
O vizinho mudou.
Coberto de água e grama, eu fico imóvel e deixo que a chuva clareie minhas ideias de como levar adiante o que sobrou da minha vida.
Preciso reagir,mas o torpor já me é mais agradável e morrer aqui na chuva não parece má ideia.
Teu cheiro na casa mudou,
A cor das vidraças mudou,
O gosto do café da manhã mudou,
A tempestade mudou. Agora açoita com força imensa minhas faces frias.
Minha alma está fria, minhas calças estão frias,
Minha mente está fria,
Meu coração está frio,
Meu peito arde, mas está frio.
Lembro de cada dia,
Cada palavra,cada cantiga e poesia.
De como tua mão tocava na minha e se encontrava com a outra que voltava do meio das tuas virilhas.
Teus olhos nos meus,
Tua boca na minha,
Teu corpo a emitir espasmos em ritmos absurdos,
Estavas em mim. Impregnada de mim.Impregnada de amor.
O amor mudou,
Meu endereço mudou,
Minha certeza mudou,
Minha gentileza mudou,
Minha caligrafia e minhas manias também.
A garrafa está vazia, mas a sede ainda é imensa.
Minhas roupas fedem,
Minha vida fede,
Minha alma fede,
Minha vizinhança fede,
O pobre cachorro fede.
Não tive sequer o tempo para me despedir da vida que vivemos,
Da paz que sentíamos,
Do amor que partilháramos.
A pancada veio rápida e forte,
Impávida e infalível.
Meu choro foi levado pelas águas junto com minha garrafa.
Estou com muito frio.
Posso sentir meu corpo morrendo.Já não me importo mais com isso.
Meu corpo mudou,
Minha alma mudou,
Meu destino mudou,
Meu medo de mudar mudou,
Meu fardo mudou,
Meu senso das coisas mudou,
Minha consciência mudou.
Estou quase perdendo os sentidos agora.Logo serei apenas mais um bêbado fétido morto numa calçada dessa cidade esquecida,da qual a felicidade mudou.
Agora que o fim se aproxima, vejo em flashs, cada momento glorioso que vivi contigo,
Cada paisagem,
Cada passagem,
Cada corredor,
Cada beco,
Cada rua ou porta,
Cada escada escura e porão,
Cada sofá e cama onde fizemos amor.
Aquele amor que amou até cair exausto e morto,
Até cair sem nada mais a acrescentar ao espetáculo da vida.
Revejo, rápidos como relâmpagos, nossos amassos e beijos,
Nossas carícias e segredos,
Nossas carências e medos.
Nos tornamos homem e mulher, cada um no seu próprio tempo.
O tempo acabou.Meu último suspiro absorve tanta água que me afoga.Nada sinto,
Nada sofro. A não ser tua falta.
A tua falta...
A tua falta...
A tua falta...
Agora já podes voltar no tempo...
Igor Furtado
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