quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Rouxinol sem a Rosa 2

Sem asas,
Sem penas,
Apenas mais um perdido no mundo,
Tendo por teto, o teatro das estrelas,
Sem pouso,
Passo,
Ou morada,
Sou só um pobre rouxinol que canta à tua janela,
Muitos invejam meu canto, que não faz jus à tua beleza,

Minha plumagem não é bela,
Nem meu porte,
Nem parte alguma que faça parte do meu todo,
Não tenho brilho nem troféus,
Não anseio mais que um recanto,
Quietinho debaixo do teu manto,

Sou só um pobre rouxinol de peito triste e canto vazio,
Ou de peito vazio e canto triste,
Ou de triste canto vazio que invade meu peito,
Vivo das migalhas da tua presença,
Da tua beleza revelada aos poucos,
Da leveza que a tua companhia me proporciona,

Meu caminho é o que sigo só,
Minhas asas, as que não tenho, não me levam muito além do que minha vista alcança,
Meu jugo é pesado e meu castigo é cruel,
Pois que vago sem rumo tentando te encontrar,
Te vejo e quando chego, não estás mais lá,
Em nosso recanto,
Em nosso espaço,
Nossa comunhão e partilha,

A luz que me guia vem do teu olhar,
A vela acesa na casa vazia não acalma o medo nem me traz companhia,
Meu mundo inteiro se resume ao canto que carrego no coração,
Toda minha vida eu vivi a voar atrás de um sonho que não existia,
Vida vazia,
Culpa vadia,
Dor que me consome no dia a dia,

Sou apenas um mísero rouxinol sem ninho,
Sem saída,
Fechado numa prisão sem muros,
Numa cela de ilusão e saudades,
Flutuando no silêncio bravio de um mar de tristes realidades,
Me alimento das sobras de poesias já mortas,
Das palavras gritadas em silêncio,
De todos os sonhos que morreram engasgados no peito,
Sem força,
Sem riso,
Sem dança,

Tenho medo da luz do mundo se apagar,
E eu, ainda longe, não poder te alcançar,
Se me forças falharem, antes de te encontrar,
Que chegue a ti ao menos meu canto,
Que fiz no intuito de te encantar,

É meu regalo,
Meu elo,
Minha herança,
A última de minhas esperanças,
É que tu me venhas visitar,

Juntos partilhamos a alvorada,
Juntos, estamos separados por uma tela e muitos espaços de distância,
Muitas decisões e insegurança,
Te vejo sofrer,
E sofro contigo a cada nova decepção,
A cada novo golpe na tua alma machucada,

Pobre rosa, por quê não te libertas?
O que ainda esperas encontrar que já não tenha te sido mostrado às claras?
Foge!
Foge comigo!
Vamos pra onde o vento nos levar!
Não te deixes definhar triste largada num canto,
Tenho em meu peito um coração capaz de te curar,
Tenho no peito um coração que tanto deseja te amar...

Mas, o que sei eu de ti?
Sou só um rouxinol vadio,
Vagando sozinho no mundo,
Sem rumo, sem pouso e sem parada,
Vivendo das sobras do que a vida me dá,
O que sei eu de ti, bela rosa?
Nada sou para ti além de nada.

Nada...

Igor Furtado.

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